Ler: Paixão Eterna

junho 12, 2010

A Propósito do Dia dos Namorados

Toda gente está muito enganada no que respeita ao amor. O amor não é essa coisa que quase todo mundo diz sentir. Um amor assim, que se oferecesse à experiência de qualquer um, que pudesse ser, de uma hora a outra, despertado por um impulso irracional, por uma manipulação midiática, por um suspiro adolescente, não seria nada que valesse a pena sequer ter, quanto mais cultivar. Não, isso não é o amor. O amor, se existe algum, é um prêmio que só se oferece às almas superiores, àquelas fortalecidas no sofrimento, purificadas no sacrifício, libertadas a pouco e pouco de todo narcisismo, de todo egoísmo, de todo apego a tudo que passa e se vai. O amor é seletivo. O amor, de verdade, é como o Graal, que todo mundo quer, muita gente busca, poucos fortes encontram e apenas uns puros alcançam. O amor de verdade não pertence a esse tempo de caixas de bombons, de aneis de compromisso e de beijos apaixonados nos finais felizes.O amor é de outra época, segue um outro código. Não é um produto, que a loja possa vender, que o comercial possa anunciar e que cada um possa consumir num dia datado no calendário. O amor de verdade não segue essa lógica. Não pode ser enlatado, plastificado, preservado na geladeira, guardado para ser consumido aos poucos, em frente da televisão. O amor verdadeiro é exigente. É um Eros divino que Psyche só reconquista depois de duras provas, feitas para testarem todos os seus limites. Essa civilização corrupta em que vivemos não pode ter um dia para celebrar um amor que ela sequer é capaz de compreender e que nunca será capaz de experimentar. Pelo contrário, ela celebra o não amor, celebra sua prisão emocional, seu ciclo vicioso de narcisismo e libido, celebra tudo que a impede de acessar qualquer vivência genuinamente amorosa. Esse é mais um ato da farsa de nosso tempo. Um dia para lojas de cartões, vendedores de bombons, para cinemas, teatros e restaurantes, para spas, motéis e lojas de conveniência, para drive-ins, portos, aeroportos e companhias telefônicas. Esse é um dia para tudo que aproxima tanto os corpos que já não pode proporcionar nenhuma proximidade verdadeira das almas. Um dia para os homens fingirem ter o romantismo que suas mulheres gostariam que eles tivessem, coisa que só fazem para obter, no fim da noite, a satisfação sexual que realmente lhes importa. Ah, como se o romantismo sonhador das novelas fosse em algum sentido melhor que a libido incontida da pornografia. Não é. Ambos são lados da mesma moeda podre do não amor. Uma é a expressão da carência de quem se dá tão pouco valor que precisa que outro cante seus encantos e a convença de que é, entre tantas, especialmente especial. A outra é a manifestação crua de uma apropriação insensível de tudo que é mundano e que já não pode mais estimar nenhum sujeito a não ser na sua condição de puro objeto e de puro meio. Esse é um dia feito para satisfazer ambas as partes, para começar no passeio e na troca de presentes que simula o romantismo de folhetim e terminar na cópula animalesca que satisfaz a libido impessoal. Esse é, por definição, o dia do funeral de toda possibilidade amorosa. O amor, lá do alto, nos observa e, com sua paciência e sabedoria divinas, se ri de nossas ridículas encenações de amor. Quando um resquício de afeto humano o comove, ele chora uma lágrima de dor e de piedade das almas que precisam desesperadamente de amor e que se tornaram irresistivelmente incapazes de amar. E o amor olha aos céus e implora ao relógio do tempo, ao calendário dos séculos, que chegue logo o dia em que ele, amor verdadeiro, possa estar de novo entre os homens, o dia em que nenhum dia especial será mais necessário, porque não haverá mais na terra essa civilização hipócrita que só celebra aquilo que ela mesma impede de existir e que carimba rótulos com nomes divinos às suas perversões monstruosas. Hoje eu me junto a ele, ao amor, nesse clamor aos deuses do tempo, para que acelerem suas ampulhetas e nos livrem desse tormento, mesmo que seja pela catástrofe final a que nossa falta de amor verdadeiro inevitavelmente nos levará.

9 comentários:

Débora Aymoré disse...

A semelhança com Nietzsche não vem, obviamente, pela aparência física, mas mormente pela método iconoclasta que você escolheu para tratar do tema do amor, justamente na época em que ações são mais realizadas do que pensadas. Uma boa ideia tratar do assunto, pois o momento não poderia ser mais oportuno.

Considero, então, sua postagem um convite ao pensamento: o que é, afinal, o amor? Bem, eu não tenho a resposta, mas garanto que sou uma das que o persegue, percebendo, no entanto, que a cada passo "adiante" ele se afasta. Aliás, esse é um tema do mito que você citou para tratar do Eros divino e, naquela história, é a desconfinça, marcada pela ferida que Psyche inflinge em Eros, que o faz afastar-se.

Talvez a sua proposta tenha muito a ver com isso, pois a percepção de que não temos esse amor incondicional só é proporcionado pelo "afastar-se", mesmo que momentaneamente, de nossas práticas habituais, para que possamos refletir o que, em última instância, é isso que nominalmente nos parece tão familiar, porém não conseguimos abarcar em seu conteúdo. Mas, o mito talvez dê uma dica interessante: todo amor começa com uma paixão (direcionada) e só consegue ir adiante pela busca, pela confiança de que um dia, próximo ou distante, estaremos novamente reunidos com aquele estado de amor que nos faz mais próximos de uma convivência divina.

Não é fácil confiar, pois confiar é entregar-se, tal como diziam os familiares de Psyche antes de entregá-la ao seu destinado casamento, ao que pode ser um mostro. Porém, não é possível fazer tal avaliação antes de ir até o topo da colina e decidir enfrentar o desconhecido, em nós mesmos e fora de nós. Em outras palavras: amar verdadeiramente nos é desconhecido e, portanto, causa-nos medo e apreensão. Por outro lado, parece-me que só teremos os meios necessários para conhecê-lo se superarmos esse momento, esta apreensão inicial e dermos os primeiros passos em sua busca.

Repito, não sei o que é o amor, mas talvez o mito nos indique um caminho possível para a sua busca.

André Coelho disse...

Linda, belo texto, mas senti falta de uma abordagem centrada mais no que o amor de verdade é e menos no que ele não é.

Pres. David Naylor disse...

Acredito que seja um equívoco colocar a presente discussão sobre o amor em termos de uma controvérsia terminológica sobre quais fenômenos merecem ou não o nome de "amor". Não se trata disso. Você está propondo, na verdade, que exista, para além do amor dos corpos, que você identifica como a modalidade masculina, e para além do amor romântico, que você identifica como a modalidade feminina, uma modalidade superior e mais autêntica de amor, que você identifica com o Eros mítico e caracteriza como puro, exigente, seletivo e difícil de ser alcançado. Como você não chega a dizer do que se trata essa última modalidade nem por que motivo ela seria superior às outras duas, cria-se a estranha impressão de que seja o fato mesmo de ser pouco acessível à compreensão e à vivência que torna esse Eros preferível aos seus substitutos mais mundanos. Mas por que o menos acessível seria eo ipso superior ao mais acessível? Parece haver uma indicação de que o amor dos corpos é coisificador e de que o amor romântico é expressão de carências afetivas, mas isso tampouco se conclui como argumento enquanto não se mostre por que tais características os tornam inferiores e, segundo o mesmo esquema, qual característica tem o Eros mítico que o torna superior a eles. Sem isso, sua postagem parece um manifesto vazio contra duas esquematizações simplificadoras das supostas formas dominantes de entender o amor em nossos tempos.

Débora Aymoré disse...

Não sei se a mesma preocupação de Naylor, mas depois que postei o meu comentário, fiquei pensando que mesmo as formas digamos mais mundanas e cotidianas são também mostras de que algum grau de afeto, que não sei se poderia ser chamado de amor, une duas pessoas. Pareceu-me que a questão da propaganda massiva não necessariamente afastaria a possibilidade de que alguns dos encontros, que se dessem ou não no dia 12, fossem efetivamente mais do que simplesmente trocas comerciais, quer em termos de presentes ou de carências físicas ou afetivas. Talvez, como no caso da virtude que se constitui em cada ação, também o amor se construa de pequenos exercícios cotidianos. Neste caso, o amor ou Eros, não estaria "fora" do mundo, mas seria necessarimente alcançado através do mundo.

Linda Cavalcanti Lobato disse...

Vou, enfim, responder aos comentários que foram feitos há tanto tempo a essa postagem.

Débora, uma coisa que o mito de Psyche nos ensina é que a descoberta do que é o amor e a jornada por recuperá-lo depois de perdido são idênticos. Eros havia imposto a condição de que Psyche jamais o pudesse ver. Isso é significativo. O amor que foi perdido proporcionava completude e felicidade, mas negava o conhecimento. O desejo de conhecimento é uma busca de certeza ou confirmação, de modo que pressupõe a suspeita e a dúvida, criadas apenas a partir da quebra da confiança. A relação de Psyche e Eros era, até então, o de uma ingênua felicidade e uma silenciosa confiança. Ambas são perturbadas pelas invejosas suposições de suas irmãs. A felicidade gera inveja, que gera suposição, que gera dúvida, que gera suspeita, que corrompe a confiança, que afasta o amor. Mas a própria possibilidade de que o amor seja assim corrompido e perdido só se explica pela preexistência de uma vulnerabilidade, de uma fraqueza na relação de Psyche. Somos levados a crer que essa fraqueza era a ausência de conhecimento, mas, se assim fosse, então a jornada de Psyche teria sido de descoberta, e não de conquista. A natureza da jornada revela a natureza do poblema. A jornada de Psyche não é de conquista de conhecimento, e sim de merecimento de Eros. Ela prova que merece o amor de um Deus, provando ser ela própria divina na sua capacidade de se auto-superar enquanto humana. Não era, no fim das contas, o fato de nunca ter visto seu amante que criava a fragilidade, e sim o fato de não sentir-se merecedora da felicidade com que tinha sido contemplada. Se Eros fosse, na verdade, um monstro, estaria explicada tamanha fortuna: era tudo, na verdade, uma grande armadilha, que cedo ou tarde se revelaria. O que torna Psyche vulnerável à influência das irmãs é sua intuição íntima de estar vivendo uma felicidade imerecida. Acho isso bastante instrutivo no mito.

Linda Cavalcanti Lobato disse...

A psicanálise tem uma abordagem semelhante a essa quando fala de auto-sabotagem amorosa: quando a pessoa não se sente merecedora de amor, o estado de felicidade de ser amada vem acompanhado de uma inquietação, que parece sem motivo, e de fato não tem motivo externo, porque seu motivo é interno. A pessoa se sente gozando de uma felicidade imerecida e, por isso mesmo, ouve uma série de vozes interiores que lançam suspeita e veneno naquela relação. Isso porque, se, no fim das contas, ela descobrir que o parceiro é um canalha, um aproveitador, um egoísta, um traidor, a inquietação irá embora, porque agora ela terá a sensação de que tem o que merece, ou seja, engano e infelicidade. Assim, a pessoa começa a adotar uma atitude que busca o tempo todo descobrir no parceiro o canalha que ela espera que ele seja (afinal, se ele não fosse um canalha, por que estaria com ela, que não vale nada?) e acaba por afastá-lo e forçá-lo a ser o monstro que ela esperava que ele fosse. Isso não acontece porque é difícil confiar, dado o medo da dor - ao contrário, acontece porque é mais fácil sentir dor do que ser feliz de verdade. É só quando, através das provas e vitórias, nós nos sentimos merecedoras de ser amadas que o amor se torna possível e sustentável.

Linda Cavalcanti Lobato disse...

André, meu querido, recorro aqui novamente ao mito. Quando Psyche, tendo deixado ao lado da cama a lamparina, espera que o amante adormeça para, acendendo o fogo, ver de que tipo de ser se trata, acaba deixando cair sobre ele uma gota de óleo ardente, que o desperta e o faz ver que a amante ousou tentar conhecer sua identidade, levando-o a fugir. Significado: Tentar abarcar intelectualmente e aprisionar conceitualmente o amor é afastá-lo e arriscar-se a perdê-lo para sempre. Por isso, é impossível responder à sua pergunta da forma como você gostaria. É melhor se contentar com as metáforas: O amor é dor da ausência e nostalgia de completude, carência de beleza e desejo de perfeição, é querer não ser para ser por inteiro. Querer saber mais do que isso, é fazer mal uso da lamparina que os Deuses nos deram. Pode parecer que saber o que ele é é condição para buscá-lo, mas é, na verdade, segundo relata o mito, o verdadeiro motivo de perdê-lo.

Linda Cavalcanti Lobato disse...

Caro leitor David Naylor. Vou responder-lhe assim: Não se trata de diferentes tipos de amor, e sim de cópias paródicas do amor, em relação ao amor verdadeiro; e o amor verdadeiro é superior a seus simulacros mudanos porque é de verdade o que eles apenas alegam ser, sem de fato o serem. Creio que isso ficará mais claro a partir da resposta que vou postar mais abaixo para a questão levantada pela minha amiga Débora.

Linda Cavalcanti Lobato disse...

Amiga, estamos agora falando de dois tipos distintos de transcendência: a que ocorre para além do mundano (por abandono, ruptura e ascese) e a que ocorre a partir do mundano (por aprendizado, evolução e maturação). Vou lhe dizer por que concordo com a sua sugestão de que haja algo de amor supramundano no amor mundano, mas discordo da sugestão de que, por isso, o amor mundano é uma via para experimentar e alcançar gradativamente o amor supramundano.

O amor mundano (que não é amor, e sim um simulacro dele) é aquilo que as irmãs de Psyche querem convencê-la que Eros é: um monstro, que se disfarça de benfeitor e amante, apenas para mais facilmente atrair e devorar a sua presa. O simulacro sexual não pode se mostrar tal como é. Não posso mostrar meu ânimo fornicador como visão e apropriação do outro apenas enquanto corpo, da sua intimidade apenas enquanto possibilidade de prazer e do seu prazer apenas enquanto confirmação do meu poder. Tenho que apresentá-lo sob a impostura de amor romântico, atribuindo-lhe uma dignidade que ele na verdade não tem, cobrindo de verniz humano o puro desejo animal. Da mesma forma, o simulacro emocional, que não passa de uma ficção criada pela carência e pela fantasia, não pode se mostrar tal como é. Não posso revelar abertamente a minha completa abjeção por mim mesma e o meu pedido desesperado de recuperar, por via do amor do outro, um sentido de valor próprio que eu no fundo sei que não tenho. Então apresento essa patologia numa forma que lhe confere santidade: o cuidado constante do outro, a promessa de dedicação integral ao outro, de entrega incondicional ao outro, que não é senão uma súplica desesperada por ser amada e por não perder a única coisa que faz parecer que sou necessária e que minha vida faz algum sentido. Esses monstros se vestem de Eros para disfarçar suas ventosas horrendas, sedentas de energias sórdidas, e suas pústulas mefíticas, supurantes de afetos malvertidos. O falso amor, nesse caso, é o maior obstáculo para o verdadeiro amor, porque se apresenta, e convence, como sendo o verdadeiro, usando-o como disfarce de sua baixeza e alimentando de dejeto estrumoso a alma faminta de amor. Uma comparação: Só se acredita no vigarista porque ele, para se fazer passar por sábio e honesto, simula semelhanças dessas virtudes, mas isso não quer dizer tais virtudes possam ser alcançadas por meio da trapaça e da simulação.