Ler: Paixão Eterna

junho 19, 2010

Comentários Pretensiosos de Hamlet (2)

Mesmo confessadamente frustrada com a falta de resposta de minhas interlocutoras explicitamente mencionadas na postagem anterior, darei hoje continuidade à proposta destes comentários à tragédia shakespeareana. Seguimos ainda na primeira cena, após o diálogo entre Bernardo e Francisco, na troca da guarda do depósito de armas do castelo de Elsinore. Como de vez anterior, primeiro o texto original, acompanhado de tradução minha, e depois os comentários.

TEXTO

(Enter Horatio and Marcellus). (Entram Horatio e Marcellus)

Francisco— I think I hear them. Stand, ho! Who is there? (Acho que os ouço. Parado aí! Quem está aí?)
Horatio— Friends to this ground. (Amigos desta terra.)
Marcellus— And liegemen to the Dane. (E homens leais ao Rei da Dinamarca.)
Francisco— Give you good night. (Dou-lhes boa noite.)
Marcellus— O, farewell, honest soldier. who hath reliev'd you? (Ah, até mais, bom soldado! Quem o rendeu?)
Francisco— Bernardo hath my place. Give you good night. (Bernardo está no meu lugar. Dou-lhes boa noite.)

(Exit). (Sai)

Marcellus— Holla, Bernardo! (Olá, Bernardo!)
Bernardo— Say what, is Horatio there? (Vejam só, é Horatio aí?)
Horatio— A piece of him. (Uma parte dele.)
Bernardo— Welcome, Horatio. Welcome, good Marcellus. (Benvindo, Horatio. Benvindo, bom Marcellus.)
Marcellus— What, has this thing appear'd again to-night? (Diga, aquela coisa apareceu de novo essa noite?)
Bernardo— I have seen nothing. (Não vi nada)
Marcellus— Horatio says 'tis but our fantasy, and will not let belief take hold of him, touching this dreaded sight, twice seen of us. Therefore I have entreated him along, with us to watch the minutes of this night, that, if again this apparition come, he may approve our eyes and speak to it. (Horatio diz que é apenas nossa imaginação e que não vai se deixar crer nessas coisas, quanto a essa visão assustadora, visto duas vezes por nós. Por isso, pedi-lhe que viesse junto, para conosco observar os minutos desta noite, pois, se a aparição vier novamente, ele poderá acreditar no que vimos e falar com ela.)
Horatio— Tush, tush, 'twill not appear. (Ora, ora, ela não vai aparecer.)
Bernardo— Sit down awhile, and let us once again assail your ears, that are so fortified against our story, what we two nights have seen. (Sente-se um pouco e deixe-nos novamente assaltar seus ouvidos, que estão tão protegidos contra nossa história, com o que vimos duas noites.)
Horatio— Well, sit we down, and let us hear Bernardo speak of this. (Bem, vamos sentar e ouvir Bernardo falar disso.)
Bernardo— Last night of all, when yond same star that's westward from the pole had made his course t' illume that part of heaven where now it burns, Marcellus and myself, the bell then beating one- (Noite passada, quando aquela mesma estrela que está a Oeste de Polaris tinha feito seu curso para iluminar essa parte do Paraíso em que agora ela queima, Marcellus e eu, quando o sino tocava uma-)

(Enters Ghost) (Entra o fantasma)

COMENTÁRIO

1. No brevíssimo encontro entre Francisco e os dois que chegam, aquele parece assustado e apressado. Pergunta quem vem lá e é acalmado pela resposta dos dois. Depois, responde de modo lacônico e impaciente e quer o mais rápido possível ir para casa e afastar-se dali. Pode ser por causa do cansaço e do mal-estar que acusara no primeiro diálogo, mas, mais provavelmente, se trata do medo do fantasma. Segundo a crença medieval, a hora em que os fantasmas saem para assustar os vivos é à meia-noite, exatamente o marco final da guarda de Francisco. Por isso ele se alegra que Bernardo tenha chegado no horário. Por isso ele não espera, como seria de praxe, que cheguem os outros e deixa Bernardo sozinho no posto. Por isso, também, ele não quer perder tempo em conversar com Marcellus e Horatio, a ponto de nem transmitir-lhes o recado de Bernardo para que se apressassem. Francisco tenta a todo custo se evadir da cena das aparições e representa a atitude de negação e de fuga, uma das que depois se verão atuantes na complexa e vacilante personalidade do príncipe Hamlet.

2. Em seguida ocorre o encontro de Marcellus e Horatio com Bernardo. Ali se desenha o jogo de relações entre eles. Marcellus e Bernardo viram o fantasma já por duas noites, estão assustados com ele (referem-se a ele como uma visão assustadora, dreaded sight), mas ao mesmo tempo intrigados quanto ao que ele é e o que quer. Por isso Marcellus traz Horatio (a scholar, ou seja, alguém com estudos avançados em latim, capaz de interpelar a alma penada na única língua nobre a que os mortos supostamente respondem) para o local. Os guardas responsáveis pelo turno da madrugada querem livrar-se da assombração, mas, além de terem medo, são incultos e só falam a língua bárbara do inglês. A crença de que os mortos respondem apenas ao latim era muito difundida na época de Shakespeare. Contudo, o Bardo aqui se vale dessa crendice para introduzir na história o elemento da reflexão. Junto com os estudos de latim, Horatio introduz na cena o pensamento racional, questionador, cético, suspeitador. Marcellus trazendo Horatio para ver o fantasma e falar com ele é o homem medieval recorrendo ao homem moderno para fazê-lo crer em suas superstições e servir-se de seus conhecimentos para exorcizá-las, mas tendo-as, em vez disso, questionadas e examinadas criticamente. Um conflito que, mais tarde, se repetirá na alma de Hamlet. Sem dúvida, uma bela metáfora shakespeareana.

3. A história que Bernardo começa a contar - e que se vê interrompida pela aparição do fantasma - quebra o clima informal da conversa de até então. Quando vai contar o que ele e Marcellus viram nas noites anteriores, Bernardo não se limita a dizer: "Ontem à noite, por volta de uma da manhã, vimos o que parecia ser o fantasma de um homem". Ele introduz uma linguagem pomposa e floreada, recorre a topoi narrativos das lendas medievais e tenta criar um clima de magia e mistério. Aqui está representada a mentalidade medieval, que sente certo prazer na alimentação de suas crenças e lendas de medo e mistério. Além disso, o homem medieval se sente de algum modo prestigiado pelas forças invisíveis por ter sido testemunho de um evento fantástico, que depois poderá relatar aos outros, para seu temor, mas também inveja. Horatio, no entanto, disse que não se deixaria levar por essas crendices, que a tal aparição era produto apenas da imaginação dos simplórios soldados, que o fantasma que tanto temiam não ia, na verdade, aparecer de modo algum. Horatio se anuncia como racional e cético e desafia a crença e a honra dos dois soldados. Por isso Bernardo recorre ao linguajar enigmático e fabuloso do legendário medieval, para reintroduzir a grandiosidade cabalística da experiência que tiveram. Shakespeare, contudo, se limita a acenar com essa história, sem deixá-la concluir-se. Ao fazer isso, por um lado, diz: "Bom, todos conhecemos uma porção dessas histórias, então o resto vocês já podem imaginar" e, por outro, mostra que, quando o evento misterioso do qual se fala é real, o fato em si dispensa todo o palavrório e todo o floreio narrativo.

6 comentários:

Débora Aymoré disse...

Achei muito interessante o comentário, especialmente o do item 2, que trata da introdução do elemento da racionalidade. No entanto, fiquei com a seguinte questão: fazer a oposição entre o modo de pensar medieval, como tendente ao fantástico e o moderno como racional, não é simplificar demasiadamente estes dois períodos? Desculpe se não entendi direito, é que me pareceu que tanto a racionalidade teria surgido antes, mais exatamente na Grécia, como também os mitos gregos poderia ser considerados formas de racionalização do que permanecia em grande parte imcompreendido pela razão. Não sei se me fiz entender bem.

Fernanda disse...

Desculpe a demora =x

Esperando uma resposta à questão da Deb (que imagino que seja mais de aprofundamento da explicação feita na postagem). Também acrescento esta: Seria possível para Shakespeare empregar tão claramente essa distinção entre homem moderno e homem medieval em um período em que essas medidas ainda não estavam tão marcadas?
Uma pergunta que leva a outra: é possível implicar que Shakespeare conhecia da característica transitória de seu período e por isso estabeleceu este contraste? Ou estas contraposições poderiam ser percebidas na Inglaterra de sua época, e por isso puderam ser trazidas à peça, sem necessariamente dar alusões a uma transição do próprio período histórico?

Muito obrigada pelas postagens, elas me deram muito o que pensar, ótimas referências e boas idéias. Ah, e uma penca de dúvidas, é claro. As quais somarei a estas perguntas que fiz e irei quebrar a cabeça com elas também.

Abraços!

Linda Cavalcanti Lobato disse...

Débora, as questões de se a oposição entre medieval-supersticioso e moderno-racional faz sentido e de se a racionalidade é moderna ou grega e se ela se opõe ao mito ou já se realiza por meio dele ilustram o tipo de temáticas sobre as quais vocês poderiam publicar postagens próprias nos blogs de vocês, que entrassem em diálogo com as minhas e fizessem a coisa toda se movimentar.

Agora, respondendo. Acredito que a modernidade se autocompreende como nascida de um conflito entre luz e trevas, entre razão e superstição na aurora do Renascimento. Essa autocompreensão é em grande parte um mito fundador do imaginário moderno. Nesse mito, o homem medieval, camponês e religioso, ignorante e supersticioso, e o homem moderno, urbano e científico, culto e racional, são estereótipos ou tipos ideais que desempenham um papel narrativo. O quanto, do ponto de vista histórico-empírico, essa era uma imagem real de um e de outro e se era possível traçar uma linha demarcatória entre um e outro é menos importante do que o significado simbólico dessas figuras no imaginário moderno.

A racionalidade tinha sido, claro, uma invenção grega. Mas a razão grega era vista no Renascimento como razão filosófica, especulativa, naturalmente tendente a questões metafísicas, e por isso mesmo facilmente vulnerável à sedução dos misticismo e do mito, como provou o uso do neoplatonismo e do neoaristotelismo pelas correntes teológicas medievais. A modernidade se entende como mãe de uma nova racionalidade, uma razão científica, que, porque assume a modéstia de seus poderes e duvida de tudo que não pode controlar, seria mais resistente e invulnerável a uma nova recaída no mito e na superstição.

Por fim, sobre se o mito é o outro da razão ou é seu primeiro veículo de manifestação, essa é uma questão que, novamente, no plano científico teria uma resposta (sim, o mito é a primeira manifestação da razão, como tentativa de compreensão unitária, sintética, causal e sistemática do mundo) e no plano artístico-cultural teria outra. Na Europa pós-renascentista, o mito é a des-razão, porque recorre à imaginação, e não ao conceito, convence pela beleza, e não por provas, e projeta sobre o mundo uma imagem narrativa e antropomórfica inaceitável. Shakespeare está recorrendo às ideias de seu tempo, que são, é claro, passíveis de crítica e de desmascaramento.

Linda Cavalcanti Lobato disse...

Fernanda, tal como disse sobre as questões levantadas pela Débora, as questões que você levantou também ilustram o tipo de que coisa sobre a qual você poderia postar sua opinião no seu blog e criar um diálogo entre os blogs que seria bem estimulante.

Agora tentando responder-lhe. Não me parece razoável atribuir dons proféticos a Shakespeare. Sendo assim, não vou aqui alegar que ele sabia o que a modernidade e a visão do medievo viriam a ser e se tornou arauto de uma autocompreensão moderna e de uma heterocompreensão medieval que ainda se estavam por formar. Mas Shakespeare já percebia um correlação de forças em conflito em seu tempo, que se encarnavam em personagens: o militar pouco instruído e supersticioso (Marcelo, Bernardo), o erudito racional e cético (Horácio), o príncipe provinciano, criado em ambiente católico (Fortinbrás), e o príncipe ilustrado, criado em ambiente protestante (Hamlet). É na verdade porque essas forças da época viriam a se tornar oposições centrais na modernidade que ocorreu de a peça de Shakespeare ganhar matizes históricos e epocais que ela originalmente não tivesse ou pelo menos não tivesse na mesma medida que tem aos nossos olhos.

Fernanda disse...

Obrigada pela resposta!
Bem, compreendo e concordo a posição de que Shakespeare percebeu e traduziu contraposições e situações de sua época, que calhou serem aspectos de uma transição a nosso ver, em vez de alguém que previu a transitoriedade do medievo para o moderno.
Então, tentarei também abordar estas questões em uma futura postagem. Espero que dê certo =x
Beijos, pode ser que eu venha a comentar em suas postagens novamente =D
(com idéias, mas sem uma formação inteligível ainda)

André Coelho disse...

Acabaram os comentários? A peça era bem mais curta do que eu esperava...